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Uma questão de Respeito: Sobre Racismo e educação das crianças

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Quando eu era criança vivenciei um fato interessante: Uma colega na escola (branca e de cabelo liso) começou a fazer uma “brincadeirinha” muito simples:  soprando a própria franja  do cabelo para vê-lo voar,  sugeriu que eu fizesse o mesmo. Eu ( negra de cabelo crespo)  no auge da inocência aceitei o desafio. Achei isso tão interessante, que cheguei em casa repetindo o feito. Minha mãe, me vendo soprar para o alto,  perguntou o que eu estava fazendo e eu expliquei a “brincadeira”. Para minha surpresa, ela ficou enfurecida e se dirigiu no dia seguinte à escola para conversar com diretora, professora e a mãe da menina. Este foi o exato momento que me percebi “diferente”, e que isso não parecia ser muito bom para mim. Tenho certeza que toda garota negra  passou  por isso em algum momento de sua vida, e sabe como isso pode ser decisivo na construção de sua autoimagem. Uma vez que ela percebe possuir um padrão estético que não se enquadra no padrão de beleza estabelecido pela mídia.

Sempre preferi manter distância de certos discursos e certas bandeiras, nunca me identifiquei com elas nem com suas  narrativas . Talvez  pelo seu  tom vitimista.

Tenho plena consciência da nossa desvantagem histórica, mas assumir o papel de “coitado”,  não faz parte da minha natureza nem da minha educação.

Entretanto, atualmente, e isso tem relação direta com a maternidade, questões de raça e gênero permeiam  minha cabeça. Repensando minha própria circunstância de mulher negra e em  como educar  meus filhos para lidar com tudo isso.

Filha de mãe negra e pai branco, negra casada com branco, filhos nascidos de pele clara, sei bem do que estou falando.

No Brasil, essas  coisas até  certo tempo atrás não eram ditas, tudo era amenizado, minimizado e jogado debaixo do tapete. Nossos vícios, preconceitos e violência eram negados sob o pretexto de sermos um povo alegre, caloroso e acolhedor. Atualmente percebo  essas crenças  caindo por terra, pois estamos vivendo uma fase de expor nossas mazelas psicológicas.  Apesar de ser  chocante, é uma fase importante no nosso processo de  autoconhecimento, autoaceitação e desenvolvimento como pessoa e como sociedade.

Quando penso no racismo ou qualquer outro tipo de perseguição ou desvantagem social, imagino como é possível, e se é possível reverter ou ao menos amenizar  esse quadro de ignorância e desamor  que ainda vivemos no nosso século.

Ouvindo alguns debates sobre o assunto, percebi   dois pontos  muito importantes. O primeiro,  educar nossas crianças para o Respeito ao ser humano. 

Pois vendo meu filho crescer e compreender essas questões   construo com ele sua auto imagem.  Vejo que é possível ajudar a criança a construir  uma auto percepção positiva de si mesma, sem que para isso seja necessário depreciar o coleguinha que é diferente dele. Digo sempre para meu filho: Cada um é como é. Um alto, outro baixo,um gordo um magro, um negro e outro branco. Somos produtos dos nossos antepassados. Somos diferentes, e é aí que está a beleza! Claro que isso precisa ser trabalhado em conjunto com a família, a escola, as mídias e a sociedade organizada em geral.

 Outro  ponto interessante, é envolver todos no debate sobre o preconceito racial  (negros , brancos, índios, orientais), pois  observo frequentemente que,   pessoas não negras, em geral não se interessam muito por esse debate racial. Talvez por  acreditarem se tratar de uma questão vitimista, talvez por não entenderem  o real prejuízo que nós, enquanto povo brasileiro, sofremos. Quando alguém negro narra sua dificuldade em se inserir em determinadas áreas, alguém branco pode  dizer : Mas todo mundo passa por dificuldades e nada é fácil pra ninguém.  Posso convidar  essa pessoa a  pensar: você já  desejou  ter nascido de cor diferente para se misturar mais fácil? Isso não é uma competição de quem sofre mais ou sofre menos, talvez seja um exercício de empatia, de  colocar-se no lugar do outro e avaliar se tal situação parece justa ou não. E se fosse com você?

Na minha família nós aprendemos muito sobre respeito, tanto a  respeitar o outro nas suas escolhas e diferenças, quanto impor e merecer o respeito das pessoas com as quais convivemos. E acredito  que, respeito tem relação direta  com compreender e amar a si mesmo.   Tenho repetido muito isso, e é o que acredito. O amor a si mesmo te liberta para amar o outro do jeitinho que ele é, e  se não for possível amar, ao menos respeitá-lo deixando-o existir em paz!

Tatiana Santos